Neste mundo de proletários, eu não poderia ficar de fora. Semanas depois da quebra do cóccix e dias depois da formatura, minha mãe me pegou pelo regaço da camisa e me levou à DRT. Fui como pude, arrastando o corpo franzino de 36kg, sobejo daquele incidente. À contra-gosto, lá vou eu tirar a minha carteira de trabalho. Era o prenúncio da inutilidade...
Quase dois anos de formada, me encaminhando na segunda graduação, e a única assinatura que me consta naquele documento é a minha, por mais que nunca tenha deixado de trabalhar, desde os idos do Diário Oficial, em que assinava por Theresa Katarina, apenas.
[Lembro-me que não queria sobrenomes. Mas houve uma mudança tão aguda na minha vida que cortar o cabelo só não resolveu. Aderir ao Bachmann foi aceitar as mudanças que o tempo infringe, como o menino rebelde que um dia se vê com o nó da gravata atado ao pescoço. Theresa Katarina não existe mais. Mas isso é assunto pra depois... tampouco quero discorrer a respeito dos direitos trabalhistas. Aos sociólogos, aos economistas, não a mim neste momento.]
Nunca perdi de vista a minha carteira de trabalho. Mas documentos úteis fogem de mim e parecem perecer com o tempo, desintegrando-se por aí, sem que saiba por que nem como. Outro dia, marquei uma página de livro com a minha habilitação. Revirei tudo, à busca, nos livros cotidianos, mas nada. Era como se incorporara, como ilustração, à página de algum deles. Durante três semanas, vasculhei com a impaciência habitual, mas nada.
Ao Detran, antes de ser parada por aí. Saí de casa, e? ... o guarda... “moço, o senhor me parou num dia péssimo...”
Tenho a sorte de um nome complicado. Theresa com tê agá e com ésse. Katarina com ká. Não, não, sem agá, só o Theresa tem agá. Bê, a, cê, agá, eme, a, ene, ene. Eme, a, eme, eme não, dois enes. Eme, a, ene, ene. “Ah, tá. E isso é o quê? Comé que se diz isso?” (...) “ah, batman!" (...) “barman?” Tá, tá, como quiser...
Com tantas peculiaridades, nem mais a minha mãe escreve o meu nome certo. Resultado disso, todos os meus documentos têm um quê de equivocados – um Zê intruso, um A a mais. O único certinho era justo a habilitação.
Lá vou eu ao guichê do Detran, com a sorte de documentos equivocados que tenho, para solicitar segunda via. Ingenuamente, digo. Olha, o nome aí no cadastro é o que tá certo, não muda não, tá? E o cara: ah, não, tenho que seguir de acordo com a sua identidade. Tem outro documento com foto certo não. Tenho não. Tire. Tenho tempo não, vou viajar semana que vem. Então, vai sair errado. Não, moço, por favor. Posso fazer nada não. Quer assim? Quero não, tchau.
Fui ao Detran mais 4 vezes após isso, tentando convencer alguém da imbecilidade que era emitir o meu documento com o meu nome errado.
Finalmente, consegui que me deixassem o nome correto. Compreensíveis, eles? Persuasiva, eu? Que nada. Me lembrei da carteira de trabalho. Certinha, certinha!
Pois é. Ao menos para algo me serviu aquele intocado documento.
Semana que vem lá vai Theresa Katarina Bachmann para mais uma entrevista de trabalho. Levar ou não a azulzinha? Melhor nem especular sobre o regime... cooperativa, contrato temporário. Ai, minha sorte! Acho que vou fazer outro curso...
P.S.: Fiz a entrevista de trabalho. O emprego é meu. Pra o meu espanto, retiveram a azulzinha. Mas ainda sigo pensando em fazer outro curso... quero ser uma multi-proletária. Sempre se pode enjoar do emprego. Melhor contar com várias possibilidades. Mas, até então, estou amando vender sonhos.
[Não, não trabalho em uma panificadora. Essa assunto fica pra depois. Quem não souber o que faço, fica na curiosidade. Mas quem quiser um sonho, eu vendo sonhos!]
sábado, 21 de maio de 2005
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3 comentários:
eu quero comprar sonhos... dos realizáveis, de preferência.
Um beijo
Quis comprar sonhos. Mas infelizmente a casa de câmbio não converte minha moeda. Pena...
Sonhos não se vendem, Queen Mab. Dão-se à luz, como num parto.
Parto onde se mesclam soluços e sorrisos (o nosso soluço, o nosso sorriso, um outro soluço inédito, o nosso sorriso...)
Sonhos não se vendem, querida, pequena Queen Mab.
Dão-se à luz, como num parto.
Estás grávida de um sonho?
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