domingo, 13 de abril de 2008

Por que os outonos não nascem neste abril?

Hoje só choveu, mas devem ter mandando para aqui a chuva errada. Ela trouxe consigo uns trovões como só os que anunciam, entre agosto e setembro, os outonos que surpreendentemente brotam na parte de cima do mundo, diletos filhos de outubro, atores de uma estação que, ao menos por aqui, não nasce em tempo algum, nem ao menos em abril.

Dos outonos do mundo, só um foi meu, e fortemente anunciado, como só depois compreenderia tal razão, por violentas trovoadas, que me enchiam de pavor e banhavam a noite com os mais inimagináveis matizes cor de prata. A cada tormenta, os raios riscavam a casca grossa do céu de maneira tão abrupta que mais pareciam predestinados a rachá-lo de um canto a outro, a fim de que contemplássemos, através de uma enorme fenda, o lugar além da escuridão.

Depois de dois meses de susto e contemplação, os trovões cessaram. Saio de casa pelo inevitável bosque de sempre e, aos meus pés, ao som de uma orquestra de folhas em estalido, prenunciada pelos ruidosos trompetes que me tiraram o sono nas noites de agosto e setembro, vejo surgir o meu primeiro outono. Como se em resposta a uma mesma ordem suma e súbita, observo as árvores imensas, e outrora frondosas, completamente nuas; suas folhas, cada uma delas, todas deitadas no chão, descortinando, com sua ausência, a presença da outra face do mundo.

Aquele imenso tapete vermelho, que suspendia a todos nós a dois palmos acima da terra, era capaz de amainar a nossa presença miúda, ao devolver-nos nossas sombras, sempre aparadas, durante aquele trajeto, pelas copas das árvores, ao longo de três estações.

...

Mas volto à minha realidade: um abril cravado quase no meio do mundo... Às vezes me pego a pensar como seria ver o outono do alto da minha varanda. Do meu segundo andar, ando cercada de verde. Para onde eu olhe, vejo um pedaço de árvore atravessando as esferas de vidro. E quando começa a parede, não é o cimento que vejo, e sim o contínuo das árvores desenhadas no meu pensamento. Mas avanço a cabeça pela varanda e, sim, elas estão ali, tais quais as vislumbro na minha imaginação. Só não sei o que há por trás delas, que contornos surgiriam sob a presença descortinante de um outono. Imagino o gato sobre o telhado, os musgos nas paredes do sobrado do outro lado do quarteirão... que sei eu?...

No abril daqui, resta-me apenas um mundo velado (que invento ao meu modo em domingos solitários como este), sem a presença de um outono que o descortine e me revele, com tapete vermelho e som de orquestra, as formas sinuosas de uma outra possibilidade.

...

Os trompetes continuam ruidosos. Anunciam algo vindouro ou apenas se equivocaram de estação?

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Made in China (ou Ruídos espantosos de uma comunicação perfeita)

De gafes na internet, eu tenho um histórico condenável (a penúltima, por exemplo, foi mandar o link desse blog de amenidades e inutilezas anexado a um email formal, por esquecer de desativar a função assinatura do meu email, que eu ativara naquele dia apenas por teste, mas que já tratei de deletar defenitivamente...) e o msn foi o pivô de muitas delas. Mas, afinal, quem nunca, no meio do atabalhoamento das milhares de luzes laranjas a piscar em uníssono nas horas de pico, não meteu a conversa para um amigo na janela do outro e coisa e tal? Normal, né? O espantoso é quando as pessoas perfeitamente se entendem...

Minha falta de destreza com essa ferramenta começou há muitos anos, e desde a mais básica das etapas: a inclusão de novos contatos. Logo que comecei a usar o msn, aprendi na prática que basta uma letrinha errada e pimba!, o convite não contrariará as leis da física; ele jamais se desintegrará no espaço; ele entrará com tudo pela janela de alguém que nunca vimos e de cuja existência jamais tomaríamos ciência senão por esta forma...

Eu, por exemplo, tenho um amigo internauta cuja cara ao vivo eu nunca vi e cujo processo de admissão no msn se deu mais ou menos assim. Ao adicionar uma pessoa no msn, apenas troquei o yahoo.mx pelo hotmail.com do email através do qual nos comunicávamos e, instantes depois, devidamente aceita, descobri que o meu amigo mexicano estudante de engenharia eletrônica transmutara-se na figura de um jazzista finlandês residente nos Estados Unidos e cuja carreira já havia sido agraciada com um Grammy... No intuito de manter contanto com o meu amigo, acabei fazendo uma nova amizade, meio atribulada pelo meu inglês tosco e pelo espanhol sofrível dele, fruto unicamente daqueles livros de frases feitas que nos legaram pérolas da incomunicação.

Por questões de fuso (o meu amigo mexicano mudou-se para a China) e de tempo, o contato com essas duas criaturas foi se tornando cada dia mais escasso, de modo que chegamos a passar meses sem trocarmos uma palavra.

Ontem, entrei no msn e, para a minha surpresa, o meu amigo mexicano estava lá. Comecei a conversar com ele em espanhol, obviamente. Perguntei como andava a vida na China, ao que ele respondeu que já não estava na China, e sim em Valencia, mas morando em Barcelona, mas que a China era bem melhor e coisa e tal. Ostentava no linguajar um trejeito bem distinto, já contaminado pelo espanhol peninsular (Venga! Vale! E por aí adiante...). Eu dizendo que tinha muita vontade de voltar ao México, e ele replicando “qué maravilla!”...

A conversa foi curtíssima, porque ele estava atrasado para um compromisso. Nos despedimos sob a promessa de que logo nos escreveríamos para contar as novidades.

Antes de desligar o pc, fui fechar as janelas abertas do msn uma a uma e, puts, me dei conta de que eu não falava com o meu amigo mexicano, e sim com o jazzista finlandês. Que confusão!

Pensei inicialmente em passar um email desculpando-me pelo mal-entendido, afinal, ele poderia pensar que eu estava tirando onda com a cara dele. Imagina, chegar para alguém com quem não se fala há muito tempo e perguntar de cara como vai a vida na China, como se a China fosse ali em Caruaru... Depois, fiquei arretada! Pensei que era ele quem estava tirando onda com a minha cara; ora, a gente só se falava em inglês e, se agora eu dizia coisas sem pé nem cabeça ainda mais em espanhol era porque aquela mensagem não era para ele, e ainda assim ele tratou de dar continuidade àquela conversa descabida...

Antes de desligar o pc, resolvi entrar na página dele na internet, que há muito eu não visitava, para ver o paradeiro daquela criatura no meio da Espanha, com o espanhol já à altura para tirar onda com a minha cara, dizendo coisas como "Espanha que nada! Na China é que é bom!" Eu agüento?

Para o meu espanto, assim que a página se abre, dou de cara com dezenas de fotos dele em turnê adivinha onde? Onde? Onde? Isso! Bingo! Na China! Na Chi-na! Na Chiiina! Na China, como se a China fosse ali em Caruaru. Ele prontamente engalanado, entre auditórios lotados, autoridades e shows beneficentes e eu aqui, boquiaberta, pas-sa-da...

Pensei em escrever para ele contando essa história, mas fiquei com receio de que ele achasse veementemente que eu estava tirando onda com a cara dele; porque, enfim, se me contassem, eu não acreditaria... Resignei-me, então, a escrever-lhe um email contando as novidades, sem mais delongas ou explicações.

Bom, depois dessa, não tenho dúvidas, os chineses fazem de tudo. Fabricam até coincidências que só Borges explica (e em que ninguém acredita!), e com uma perfeição de dar inveja aos eletroeletrônicos, que logo se estropiam. Através de ruídos espantosos, ontem nos proporcionaram uma comunicação perfeita. Acredite se quiser.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Pastel Clarice... hummm!

Sonhar é simples, lembrar-se do sonho (para muita gente, não para mim) é uma tarefa delicada, compreendê-los, diria, é um processo criptográfico, mas nada que uma boa metáfora não venha dar uma mãozinha...

Dizem que todo mundo sonha pra caramba, ainda que existam aqueles que encham a boca pra dizer “não sonho nada!”. Bom, eu abro a boca pra dizer que sonho pra caramba, porque toda santa manhã me acordo com ao menos uma história no regaço do pijama, louca pra achar alguém a quem contar.

Esta semana, por exemplo, depois de decidir aprender de fato a cozinhar, sonhei com uma pérola da culinária, já vivenciada por alguns amigos na realidade (né, Kiu?!), a que chamei carinhosamente de Pastel Clarice. Mas não fui eu quem cozinhou desta vez; apenas batizei a receita.

Era noite. Estávamos Conrado, eu e outros amigos (acordei sem saber direito quem, mas, possivelmente, eram Artur, Carol e Brenda, porque o clima do ambiente é o que existe quando coexistimos) num lugar agradável, meio cingido de preto, com detalhes vermelhos e uma luz dourada que iluminava o ambiente na medida exata. Havia muita gente no local, mas era possível conversar sem precisar subir a voz, e a conversa entre nós rolava solta. Ocupamos uma mesa redonda no canto de uma das paredes, que ostentavam pequenos quadros com molduras escuras e foscas, mesmo tom de todos os móveis da casa.

Ocupávamos aquele espaço já há um bom tempo, quando fizemos outro de nossos pedidos, uma rodada de pastel. O garçom, como de costume nos bares daqui, serviu um a um na medida em que o pedido ficou pronto, e não a todos nós de uma mesma vez. O primeiro pedido a chegar foi justamente o de Conrado, que despertou água na boca do grupo e o desejo ardente de que nos servissem logo...

De olho no pastel de Conrado, notei que do retângulo da massa dourada sobravam dois finos fios de ébano. O meu impulso foi o de quem dá uma beliscadinha: puxar aquela sobra torradinha e levar à boca para amainar o desejo de comer enquanto o meu prato não chegava. No trajeto do prato à boca, Con partiu o pastel com os talheres e, contrastando com o dourado da casca e com o acolchoado do queijo derretido, supostamente o seu único recheio, repousava em sonhos ardentes uma negra e rechonchuda barata, com antenas grandes como as de uma lagosta, e sem duas das pernas, absortas entre as pontas dos meus dedos e viajando em alta velocidade em direção à minha boca.

A visão da barata me trouxe à tona. Acordei de supetão, pela força do asco, e fui direto para o banheiro lavar as mãos, aliviada por não ter comido as pernas da barata... Obviamente, voltei para o quarto no meio do caminho. Ora, lavar as mãos por conta de um sonho! Alô, realidade! O sonho já acabou! Mas a vontade era de voltar a dormir para saber o final da história...

Diante da impossibilidade, e conhecendo a gente como nos conheço, comecei a visualizar o final. Eu, engulhando, iria para o banheiro morrendo de rir, esticando a mão direita o mais longe de mim; Conrado deitaria delicadamente os talheres sobre o prato, faria cara de asco e giraria a cabeça de um lado pra o outro, semicerrando os olhos; Carol torceria o nariz e emitiria o clássico som do "argh!"; Artur me acompanharia no riso, aliviado por não ter testado a textura da bichana, poria a mão direita na boca, apontaria para mim com o indicador da outra mão e aboticaria ainda mais os olhos, já naturalmente aboticados; Brenda, por sua vez, deitaria furiosamente as duas mãos sobre a mesa, giraria o dedo indicador da mão direita no ar, em espiral, num leve piti, deixando todos os outros clientes cientes da inóspita criatura e no direito de receberem de volta suas rodadas de pastéis (afinal, "barata só anda em bando, meu bem!", frase que diria ao gerente e com a qual ganharia a causa coletiva).

Antes de voltar a dormir de novo, desta vez para sonhar com tartarugas marinhas imensas vistas da varanda de minha casa (detalhe indispensável: moro num segundo andar a pelo menos 3 quilômetros do mar), fiquei pensando a respeito do porquê desse sonho. Não me veio à mente outra resposta: adoro pastel, adoro Clarice e só desejo o melhor para Conrado.

Metáforas são metáforas...
O que vale é a intenção, e a minha, juro, foi das melhores.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

Do açúcar para o sal - proposta para uma mudança

Querida Ina,

Hoje estava pensando na vida. Deitei a cabeça no travesseiro, sem o propósito de dormir, e parei pra pensar. Às vezes os dias passam tão danados que a gente deixa a vida de lado e pensa em um bando de coisas, menos nela.

Parei pra pensar na vida por causa de uma coisa que fiz anteontem. Quem me conhece sabe de longe que cozinhar nunca foi o meu forte, apesar de morar há tanto tempo sozinha e ter que cozinhar de vez em quando sempre. Anteontem o meu macarrão estava estupidamente ruim, muito pior do que o convencional, e só entendi o porquê disso um dia depois. Ontem, quando fui guardar o continente do condimento, descobri que o conteúdo era açúcar e não sal... mais um pequeno desleixo da minha parte em meio a uma maré cotidiana repleta de pequenos deles.

Pois hoje o meu desleixo doeu na alma. Acho que sou desleixada assim pra um monte de coisa - com os amigos amados e com outras criaturas -, mas ninguém morre por trocar sal por açúcar e a vida vai seguindo o curso, embora desordenada, tosca, mal-enquadrada, como fazem aquelas crianças em fase de aprendizado ao encaixar a toda força o triângulo dentro do quadrado. A diferença é que elas logo aprendem...

Acho que troquei o sal pelo açúcar em muita coisa na minha vida. Centenas de mancadas tão bobas mas que, negligenciadas, com o passar do tempo viram males sem remédio. Não é de outra forma que nascem os desafetos e até os inimigos, acredite.

Outro dia, há muitos anos, bem uns dez, um professor meu me disse para que eu me desse 100% em tudo o que eu fizesse, em cada ação praticada, por mais boba ou corriqueira que ela fosse. “Quando estiver lavando pratos, Theresa, esqueça o mundo, e se concentre nos pratos”. Mas acho que só me concentro 100% justamente lavando os pratos. Adoro lavar pratos, não sei se influenciada por essa observação dele ou porque gosto mesmo, ou pelas duas coisas.

Durante esses minutos de pensar na vida, comecei a confabular a respeito de meios de trazer essa reflexão pra o meu cotidiano. Decidi voltar pro yoga, assim eu teria duas horas semanais inteirinhas pra me concentrar no ato de concentrar-se. Acho que buscar a concentração absoluta me ajudará a me concentrar nas outras coisas. E me concentrando mais nas coisas que eu faça certamente farei coisas menos toscas.

Decidi também comprar um livro de receitas e aprender de fato a cozinhar. Acho que já é hora. Tem gente que tem talento nato; pra maioria, é esforço, como tudo nessa vida. Esse negócio de que falta mão é desculpa de preguiçoso. Não caio mais na minha... Já até pesquisei uns títulos aqui. Vou começar pela culinária vegetariana. Amanhã passo na livraria e sigo direto pro supermercado. Ah, se eu aprendo... Em vez de um peso das costas, tiro logo dois...

Pois é, querida Ina, nem todo açúcar alcança o doce, mas com o amargo também se aprende. Espero dessa vez ter aprendido a lição. O tempo dirá e os que cheguem para o almoço prontamente saberão.

Açúcar ao que é de açúcar. Sal ao que é de sal.

Um abraço enorme, mas não maior que a saudade,
T.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

O sismógrafo disfarçado

Nervosismo é uma cousa. Deve ter existido desde que o sentido do “argüir” surgiu no universo da cultura, quando a palavra “argüir” rompeu o som do silêncio e revelou algo a mais no mundo dos referentes, que, por sua vez, precisam mesmo ser nominados; afinal, só com nomes para que compartilhemos os grandes micos, essa espécie de conhecimento que atrai multidões e que se difunde de forma invejável...

Quem não conserva na memória uma pérola do ridículo fruto de uma argüição? Quem não embolou a voz, tropicou nos “esses” e buscou os buracos na parede fingindo tratar-se de olhos, com medo de encarar a expressão facial do argüidor? Quem não?! Quem disser que não, das duas, uma: ou orgulhoso, ou filho do patrão.

É, o nervosismo deve ter nascido mesmo com o verbo argüir... Tenho quase certeza disso... mas essa sensação bem que poderia ficar só na cabeça da gente. Mas não. Criatura malina, desce pra o corpo todo. Faz de um simples papel ofício um leque em pleno movimento. Embola a voz das criaturas que não tiveram nem a quase inescapável gagueira infantil. Caleidoscópio que deforma a gente... ou, pensando bem, será que somos assim? Será que “somos” verdadeiramente quando confrontados, quando submetidos ao limite, quando libertos da anestesia (da anti-aisthèsis...), quando acuados?... Será? Será que a nossa essência é o adrenalínico-tremulante?

Bom, se ser ou não ser, esta não é a questão. A questão é o verbo argüir na passiva... Nessas horas, nunca aceite a água oferecida pela alma caridosa que lhe note o desespero. Fatalmente, esse líquido precioso, que nestas horas abandona o dom de acalmar, deixará um rastro ao longo de toda trajetória antes de chegar à sua boca. Pois é, verdadeiramente não existem verdades categóricas. A água pode levar alguém às vias do desespero.

Como me saí? Bom, não encarei os buracos da parede, porque a minha miopia os apaga antes de que eu os visualize. Acho que também não tropiquei nos “esses”. Só embolei a voz e fiz do papel um leque poderoso, que tratei logo de largar sobre a mesa antes que ele abandonasse a forma de leque e saltasse das minhas mãos sob forma de aviãozinho de celulose (quero nem imaginar quem receberia este ingrato presente...).

Ainda bem que não existia um sismógrafo embaixo da cadeira... ele correria o risco de não estar vivo para a próxima seleção. Mas desconfio de que o copo de água faça as vezes de. E o faz com a eficácia das grandes tecnologias, expondo o resultado a todos em tempo real. Ainda por cima, é ecologicamente correto. Uaaau!

Ah, o copo d´água... ainda bem que não o aceitei.

sexta-feira, 12 de outubro de 2007

Perguntas sem resposta.

Em tempos de bienal, me veio a lembrança da FIL e de um hábito que não sei por que cargas d´água virou símbolo de cool lá em Guadalajara. Dias antes do início da feira, minha professora Alicia me disse que surrupiar um livro da FIL era um marca de status e que todo mundo, se não tentava, ao menos imaginava consigo uma alternativa para obter tamanho logro. Meus companheiros de sala, de fato, bolavam dezenas de estratégias de como fazer para ter na estante um livro surrupiado da FIL (eu pensava comigo, como se guardasse o mais valioso segredo, que a estratégia mais fácil seria inventar uma bela história, comprar um livro, rasgar a nota, e ostentar para todos o objeto no dia seguinte; afinal, o selo de procedência é a mera palavra do meliante).

Passei várias horas no espaço da FIL e, logo de chegada, me deparei com um stand que destoava dos demais pelos títulos que trazia. Fiquei uma boa meia hora conferindo o nome dos livros e muitos deles se repetiam, mudando apenas a referência do autor. Agarrei um deles e, por um instante, gostaria de que ele fosse o meu objeto de desejo; afinal, ele resumia o conteúdo de todo o stand e era mais barato e portátil do que a almejada estante de hispanoamericana que eu gostaria de ter levado para casa (saí da FIL apenas com dois livros promocionais com histórias de animais marinhos exóticos, dezenas de folhetos e um bibelô que até hoje não sei em que estante acomodar)...

Psicologia del cambio – Poderosas lecciones espirituales para la transformación personal. “woow!”, pensei! O baú das respostas! Folhei o livro, repleto de perguntas das mais absurdas que, à falta de respostas, apenas davam aos desesperados leitores variadas idéias para o incremento de suas crises pessoais. Recorrentemente, falava a respeito de um yo personal cuja sintonia era a chave de tudo, mas não revelava, contudo, o segredo. Folheei outros exemplares à cata da resposta (afinal, toda saga traz ao final o seu desfecho) em vão; deixei o espaço chateada por ter perdido o meu tempo, e aliviada por não ter despendido um mísero peso sequer com nenhum daqueles títulos.

Rodopiei por outros stands da FIL por mais um par de horas, lanchei, conversei amenidades sentada nos degraus alcatifados cingidos de azul... Chegado o tempo de ir embora, sento no banco do carona e, ao puxar o cinto, sinto a minha mão ocupada com a presença de um objeto de que até então não me dera a mais mínima conta e que, logo, todos passariam a venerar como se fora um valioso troféu (confesso: até hoje, os meus olhos só enxergam nele um bando de folhas ordinárias...).

É, o livro das perguntas sem resposta driblara la policía reforçada e alerta para encarar gestos como esse com um rigor bem-humorado ao longo das semanas da feira literária. Dizem que dezenas de pessoas são, digamos, alertadas diariamente pela segurança (oye, amigo, creo que se te ha olvidado pagar!) e poucos, de fato, saem incólumes e com o objeto do desejo gratuito nos “braços”. Eu fiquei enraivecida comigo mesma por não ter realizado este gesto impensado com um livro que ao menos merecesse o transtorno de um inquérito (acredito que até as atitudes inconscientes exigem um mínimo de bom senso). Ah, um dos tomos da obra completa de Borges, que faziam da estante de hispanoamericana para mim uma quimera ainda mais cara...

(...)

Na segunda-feira seguinte, contei pra Alicia o meu feito. “Tere, te robaste un libro de la FIL! No me lo creo!!!” expliquei que foi sem querer e ela demonstrou um êxtase como se eu tivesse realizado uma grande proeza. Tratou, claro, de espalhar a façanha para os demais. Logo, sem que pretendesse, virei a nova descolada do pedaço. Os meus colegas, criadores das mais brilhantes estratégias, me perguntaram, entusiasmados, qual era o segredo. A minha resposta era uma não-resposta, uma espécie de yo personal cuja sintonia, se revelada ou pretendida, faria perder o encanto da ação; a tornaria, por assim dizer, inatingível. Sem maldade, lhes expliquei: o segredo é fazer o gesto sem querer, ser espontaneamente inconsciente do ato. (Existia, claro, uma segunda possibilidade, mas esta eu guardei para mim. Revelá-la seria pôr em xeque a proeza de alguns astutos e de outros distraídos como eu.)

Foi nesta mesma segunda que descobri o peso do valor simbólico que é capaz de transformar um emaranhado de páginas numa estatueta de valoração sem medida: nem Alicia nem os colegas conheciam concretamente alguém que tivesse roubado um livro da FIL antes de mim... Fiquei pasma, boquiaberta, e com um grande remorso por ter surrupiado sem querer aquele livro; por ter, possivelmente, realizado o ato inaugural daquele "hábito" sob os auspícios de uma obra tão incrivelmente ordinária...

É, pelo jeito, os honestos definitivamente se dão mal... Ah, se pelo menos fosse El Aleph, um bibelô tão mais fácil de acomodar na estante... até hoje me pergunto por que não.

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

Sobre cães e cavalos


Foto by B.

Suja odeia cavalos e os domingos são dias certos para dar de cara com muitos deles. Se ela pudesse, cravava-lhe os dentes na coxa, ou puxava o rabo numa bocanhada de força movida pela raiva. Suja, no entanto, nunca teve a chance de se apossar de um; entre um cavalo e ela sempre existiu um espaço transparente que a corrente não lhe permite perpassar. Basta, porém, o vislumbrar ao longe para que ela perca completamente a razão e emita um ladrido de desespero. Os cavalos são pragas que ela adoraria eliminar do mundo, eu sei; nós sabemos. Quarteirões inteiros sabem da presença de um cavalo quando a rua não está ausente da presença de Suja.

Tonho, Suja e Ralf fazem parelha todo domingo. Domingo é dia de passeio e banho pra Suja e pra Ralf, e de trabalho, muito trabalho, para Tonho. O calvário é mesmo na hora da missa, dez da manhã. A hora pra terminar depende dos ânimos, mais do de Suja que do de qualquer um. Outro dia mesmo, terminou bem tarde...

Suja, ao ver um cavalo, chacoalha-se no ar, enche o som do mundo de um grito absurdo, morde o vento e eriça o pêlo, deixando-o inexplicavelmente longo. Outro dia de domingo, o transtorno de Suja ultrapassou o esperado. Ao ver o cavalo, teve início o descontrole. Só que, ao invés do vento, o alvo da bocanhada foi a orelha de Ralf, que abandonou de vez a antiga forma triangular: agora, uma fenda a separa em dois hemisférios. Tonho, em vão, durante algumas horas, tentou conter o sangue da orelha de Ralf, que deixava um rastro vivo, gotejante e uniforme anunciando a sua passagem por onde quer que ele fosse.

Não sei por que essa relação de repulsa que exercem alguns cachorros sobre os cavalos; inveja, talvez, afinal, um cão é um cavalo bem menor e menos ágil. Sempre quis ter um cavalo, mas, como não são seres muito portáteis, o espaço de que dispunha até agora só me permitiu criar os cães. E enquanto Suja viver, pelo jeito, só os cães, fosse lá qual fosse o espaço. A tirar pela orelha de Ralf, me pego imaginando mil formas para o rabo do cavalo... não, melhor não.